sábado, 24 de março de 2012

Vozes de um consultório que é meu #1

Conheci a M. logo no início da minha especialidade: olhos verdes, sotaque inconfundível, menos 2 ou 3 anos do que eu, trabalhava numa fábrica téxtil. Muito perguntadora, gostava de se informar, ansiosa q.b. Muitas vezes recorreu à nossa consulta por problemas diversos, maioritariamente do foro ginecológico e, poucas foram as vezes que lhe conseguimos dar o alívio que gostaríamos, infelizmente.


Engravidou e pouco tempo depois, teve um aborto espontâneo. Nada de preocupante, para nós comuns médicos, porque sabemos que a Natureza faz o seu melhor na grande maioria das vezes, mas uma tristeza enorme para a M. e um medo ainda maior de uma próxima gravidez que andou a adiar. Depois de tantas conversas, lá se convenceu que a probabilidade de voltar a acontecer era mínima e, pouco tempo depois engravidou.


Viveu o primeiro trimestre em sobressalto, achamos mesmo melhor que ficasse em casa durante umas semanas para que andasse calma (longe das incompatibilidades que trazia com os patrões) e, depois dos 3 meses passados voltou ao trabalho. No entanto, aquela ansiedade pequenina nunca a largou e, achamos que seria bom para ela e para o seu bebé, que fizesse preparação para o parto e, isso implicou, que no final da sua gravidez retornasse a casa.


A filha da M. nasceu, o parto correu bem e a M. estava feliz.


Começaram as febres, uma bronquiolite aqui e ali, e uma virose ou outra com noites passadas no hospital. Acompanhei de perto uma boa parte destes processos e depois, em Dezembro, enfiei-me em casa para estudar.


Quando, no início de Março regressei, o novo interno contou-me do internamento de uma utente que, pela descrição, era a M.


Um surto psicótico causado por uma depressão pós parto leve que se arrastou... A M. foi a uma consulta aberta pedir ajuda, que só pensava em morte, que não acreditava que a sua Mãe (que mora longe) estivesse viva, que via sangue e que imaginava a sua filha morta. Frase de alerta, de perigo eminente e, nesse mesmo instante, a M. foi de ambulância para o Hospital a fim de ser internada.


Na semana passada voltei a vê-la. Disse sentir-se melhor, pensava em morte de vez em quando, mas conseguia rapidamente afastar esses pensamentos da sua cabeça. Disse que teve de mentir para se vir embora do hospital, porque o ambiente daquela enfermaria lhe estava a fazer pior e não a quiseram transferir. Disse que sentia a alma vazia e o coração cinzento, enquanto os olhos se enchiam de água, mas as lágrimas não caíam. Disse que nada lhe trazia alegria e que não conseguia sentir prazer em nada do que antes gostava de fazer.


E disse que, o pior de tudo, era a culpa. A culpa por não estar capaz de cuidar da sua filha, a culpa porque nos dias anteriores ao seu internamento ohava para ela e não sentia amor, a culpa por durante aqueles 15 dias que esteve internada, ter sido outra pessoa a cuidar da sua pequena e não ela, a culpa por, neste momento não estar capaz de lhe dar tudo o que ela precisa...


E, enquanto a M. falava, o meu coração ia gradualmente apertando e, acho que também eu fiquei com os olhos em água. Deu-me uma pena imensa da M., que tanto gosto, e imaginei mesmo o que tudo aquilo lhe estava a custar. Ouvi-la dizer que, em 15 dias, se perde tanto de um filho e, que a maior alegria dela tinha sido no dia em que chegou a casa a filha ter começado a andar, a médica que há em mim, fugiu para longe e vim eu, a Ana Mãe, que lhe deu a mão, respirou fundo para se conter e lhe garantiu que a entendia, que tudo o que ela tinha sentido era normal, que não conheço uma só Mãe que não passe por horas e dias de culpa e que, na grande maioria das vezes, sem motivo nenhum.


A M., que não tem mais que o 9º ano, descreveu-me a Depressão melhor do que qualquer compêndio de psiquiatria, falou de uma forma tão clara e elucidativa ao mesmo tempo que aqueles grandes olhos verdes não diziam nada. A M. tem um longo caminho pela frente e eu, infelizmente, não vou lá estar para a acompanhar, para conversar um bocadinho mais com ela, para ler tudo aquilo que lhe pedi que escrevesse, para lhe garantir que a sua filha se sente amada e que, no futuro, não se vai lembrar de nada.


E, para a M., que desde sexta feira não é mais minha utente, ficam as saudades que vou ter e um carinho e respeito enorme por tudo o que passou (e ainda há-de passar)


3 comentários:

Duchess disse...

:(:(
E ela precisava tanto de alguém que a escutasse, que fosse empática com ela.

Também fiquei com os olhos rasos de lágrimas. Não é comum a psicose puerperal. Ou dito de outra forma, a depressão é mais comum. E o que todas nós sentimos é o blues pós-parto.

espero que ela seja acompanhada como deve de ser para se fortalecer.

tiveste muito, muito bem.

beijo grande minha menina de coração grande

Melancia disse...

Não é nada comum, mas existe e é um perigo para Mãe e bebé!
Sei que a M. estará bem entregue, a minha orientadora é óptima e vai acompanha-la como sempre fez até agora. Mas confesso que gostava de estar com a M. e ir conversando com ela. Aquela parte da culpa entendo bem, que sou Mãe a minha orientadora não, e custou-me tanto vê-la assim e saber o tanto que ainda lhe falta para voltar ao que era!

Mum's the boss disse...

sabes, quanto mais te leio (e depois de hoje à tarde) mais te acho de uma generosidade e de um coração raro e enorme... Com este post fiquei assim :( e assim :)