Foram dias, meses, de angústia os que vivi entre Abril e Julho 2014. Era uma autêntica bipolaridade interna a que me encontrava e os meus pensamentos e raciocínios giravam em torno da dificuldade em tomar uma decisão que iria mudar a minha vida. Apesar de adorar o meu emprego, o meu local de trabalho, as minhas colegas, sentia-me limitada no meu tempo. No meu tempo para aquilo que, para mim, me faz mais feliz, os meus filhos, a minha família. Apesar da alegria que todos os dias sentia no meu trabalho, chegava ao final do dia e não me sentia plena porque me faltava tempo.
E foram dias tão difíceis, devo ter andado insuportável para o Pedro, porque eu própria já estava fartinha de me aturar. Se num minuto decidia que tinha de mudar de vida, de desistir do Centro de Saúde, no seguinte chorava porque não me imaginava noutra qualquer profissão. E a minha cabeça andou assim durante meses, luta interna entre os prós e contras de cada decisão, falava com o Pedro, falava comigo própria no transito (tenho muito este hábito enquanto conduzo) e não conseguia desatar o nó que se estendia da cabeça ao coração. Recorri a ajuda profissional, à minha muleta de há vários anos, que me conhece tão bem e lá me assumi: por mais que eu adore a minha profissão - MÉDICA DE FAMÍLIA- aquilo que é mais importante para que eu me sinta realizada, feliz, serena, é a minha família. Eu sou mais feliz como Mãe. Caramba, assumir isto não é fácil, parece até antiquado e contra tudo aquilo que as mulheres conquistaram. Olha agora,depois de 6 anos de curso, 1 de internato e mais 3 de especialidade esta croma quer é ter tempo para estar em casa a mudar fraldas e limpar ranhos... Ninguém me disse isto, eu é que enfiei este preconceito na minha cabeça.
A 6 de Julho, vinda duma consulta de psicologia, e de ter vindo a chorar o caminho todo entre o Porto e a Maia, cheguei a casa e disse ao Pedro, enquanto o abraçava: Vou mudar de vida.
Guardámos a decisão connosco até Setembro, altura em que ia falar com as minhas colegas de trabalho. Falei a atropelar-me, chorámos todas, elas entenderam, elas não queriam, elas disseram que no meu lugar fariam o mesmo, elas pediram para voltar atrás na decisão, elas abraçaram-me, elas foram maravilhosas.
Tomei esta decisão porque quis, mas também porque posso. Posso, porque tenho um marido que me apoiou incondicionalmente neste processo e ficou feliz com a minha decisão. Posso porque tenho um plano B de mão beijada, em que vou comandar a minha vida, os meus horários, as minhas folgas e férias e afins. Porque quis e porque posso, sem dúvida.
E, assim sendo, ficarei em casa, como MATI (mãe a tempo inteiro), até Setembro, altura em que o Miguel entra para a escola e, a partir dessa altura assumo aquilo que todos acham que me está destinado, ir trabalhar com o meu Pai.