Quando alguma coisa é infinita significa que é imensa, inteira, presente quando menos se espera e é assim a generosidade das crianças, a forma como nos amam e nos lembram, tantas vezes, que o amor incondicional nos vem deles.
Todas as noites, quando o deito para dormir e me enrosco um pouco, o Miguel diz, de sorriso na boca e olhos entreabertos com meiguice, "Mamã linda. Mamã boa". Nunca lhe ensinei tal coisa e já o faz há vários meses. E diz isto, às vezes depois de meia dúzia de ralhetes para que se deite e fique sossegada, depois de eu ter sido tudo menos linda e boa. Diz-me isto mesmo depois daqueles momentos em que não tive paciência, fui mais fria. E aquele momento de doçura dele lembra-me que eu sou "linda e boa", lembra-me que sei fazer melhor e, às vezes, fico com a sensação de que ele sabe disto muito melhor do que eu. Aquelas frases dele funcionam como pequenos post-it que colo na minha memória para que, no dia seguinte eu seja efectivamente "linda e boa". E sou, porque ele assim o diz.
Também há uns dias o Diogo me deu uma lição de generosidade. Depois de vinte (ou terão sido trinta?) vezes que o chamei para vir tomar banho e ele me ignorava enquanto brincava, eu, munida duma dor de cabeça gigante, e uma total ausência de paciência, agarrei-o de forma firme bem bruta no braço e arrastei-o até à banheira enquanto disparava meia dúzia de frases azedas e de forma também firme bruta e agressiva coloquei-o no quarto de banho. Ele agarra-se a mim e de sorriso na cara diz tranquilamente: "Mesmo quando és bruta comigo e me empurras eu adoro-te para sempre".
Bem sei que "children see, children do" e este é reflexo de todas as vezes que lhe disse que o amo muito até quando ele faz a maior birra, quando faz a maior asneira, mas não deixa de ser maravilhoso assistir à facilidade com que o amor lhes sai.
Apesar de não viver envolta em culpas e ressentimentos comigo própria quando não me sai a melhor frase ou o gesto mais meigo, estas frases e atitudes destas pessoas pequenas são puros ensinamentos. Porque todas as crianças são assim, não é mérito cá de casa, é a essência da infância e, o nosso mérito é manter esta generosidade no seu todo ao longo da vida, permitir que sejam felizes neste amor que sentem e espalhá-lo um pouco todos os dias. O nosso trabalho está em fazer com que o adulto que está a caminho não anule esta simplicidade no sentir.