"Doutor: É de olhares. É de olhares que eu preciso. Tudo o que o médico diz sem olhar é bula de medicamento. Papel fininho, dividido em 8 partes, como instruções de montagem. Não... é d eolhares que eu preciso. De um certo olhar. Preciso doutor, que o azul dos seus olhos me faça companhia, que a cor, que é do céu e do mar me traga paz... não, minto, a planície onde se estenda tranquila a criança que trago nos meus braços. Percebo que desse lado da secretária, com os seus instrumentos e o seu saber, crie uma distância que o preserve da dor, e que derrame sobre o meu filho prognóstico sem esperança, abanos de cabeça onde chocalha a impotência. Pare! Nos seus olhos receba-o e a mim, que somso um só. Doutor, o senhor é homem...não compreende...mulher e filho têm o mesmo caule, a mesma raiz. Não se iluda doutor, somos o mesmo, matéria ou espírito, somos o mesmo. Toque-lhe e a mim me toca, beije-o, e a mim me beija, acaricie-o e a mim festeja. O meu filho doutor, não se esqueça, o Meu Filho. Por favor, olhe-me eno seu olhar prometa-me. Não, minto, jure pela saúde dos seus, que o saberei proteger, que viverá para sempre, criança sem mágoas junto a mim, que o meu peito é redondo como céu, a minha pele sem ruído como o mar. Jure que terá o conforto que o meu ventre prometeu. Mais, muito mais; que o meu ventre lhe jurou. Sim, porque dentro de mim existia um oceano, e a parede do meu útero era um universo sem estrelas, noite perfeita, que as estrelas, às vezes, não deixam dormir. Doutor, ele cresceu dentro de mim. Não anuncie desgraças, privações, troças, desamores. O meu corpo é um casulo, dele só nascem boboletas.
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Quem veio de país tão misterioso, (as pessoas não sabem, mas a minha barriga é aquele país distante ond evivem príncipes sem medo, e princesas de cintura fina e virgindade guardada), decerto crescerá sem mazelas que um beijo não console, sem rodas vivas que o meu olhar não ampare, sem que se interrompa a minha promessa eterna de mulher. Não, de mãe, que ser mulher, é apenas uma desculpa, sim, uma desculpa para ser mãe. O senhor não sabe, não conhece... Não, doutor, não olhe assim para mim, não anuncie dores, mortes, imperfeições. Não finja saber o que de todo desconhece. Alguma vez sentiu dentro de si, a vida que justifica a vida. Não, agora a a sério... Doutor, que sabe o doutor da vida, se nunca, dentro de si, ela cresceu?
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diga-me doutor, se alguma vez dos seus olhos nasceram rosas? Da sua barriga se abriram folhas, cresceram pétalas, espantos e encantos? Risos sequer? Mãos de criança? Diga doutor, já alguém se alimentou do seu seio, e, farto, adormeceu? Alguma vez dos seus olhos nasceu o Sol? Doutor, se dentro de si nada que se pareça com um jardim alguma vez brotou, se dentro de si nem risos nem choros, nem olhos nem mãos, nem esperança nem dor, nem nada do que nesta vida merece ser celebrado, alguma vez brotou, tire a gravata, doutor e por uma vez, peço-lhe, cale os seus olhos."
Crónica do olhar que anuncia a morte
in Sinto Muito de Nuno Lobo Antubes