Quase dois meses depois tive de lhes contar que a zebra Tombi, que acompanhavam desde o segundo dia de vida, tinha morrido. No entanto, depois de tanto sofrimento a que já assisti naqueles dois por outras mortes de animais, desta vez não tive coragem para falar a verdade e disse que a Tombi já não estava na quinta porque tinha ido para um Jardim Zoológico. A primeira pergunta foi do Diogo, que quis saber se nunca mais a íamos ver, ao que o Miguel respondeu de forma muito pragmática: vamos a esse jardim zoológico e estamos com ela. Disse que não era possível, que era numa cidade muito longe e, nesse momento o Diogo desata a chorar, mas a chorar a sério. Revoltado. E eu quis um buraco para me enfiar porque me arrependi imediatamente de não ter dito a verdade, a minha mentira não lhe poupou qualquer tristeza, até acho que foi pior a emenda que o soneto, uma vez que o senti revoltado por não se ter despedido e apenas lhe terem dito na véspera de ir à quinta.
O Miguel seguiu com a vida dele e foi, tranquilamente brincar. Mas o Diogo não. O Diogo deitou-se na cama, agarrou-se ao seu ursinho e a mim numa tristeza... Pedi-lhe desculpa por lhe ter mentido, que não gosto mesmo nada de lhe mentir e contei-lhe o que realmente aconteceu. Pode até ter sido impressão minha, mas achei que, no meio do choro e da tristeza, se acalmou e disse logo que me desculpava, que eu menti "na hora certa", porque o Miguel estava no quarto, não ia entender a verdade e assim não ficou triste. Só este meu filho para dizer isto... Quis ficar agarrado a mim na cama, sentia-lhe a tristeza na força com que me abraçava e comovi-me também.
Quando acalmou, sugeri-lhe imprimirmos umas fotografias que tínhamos tirado com a Tombi e colocá-las no quarto para que, desta forma, ficasse sempre presente. No dia seguinte, sem falhar, cheguei a casa com três fotos que ele emoldurou e, meticulosamente, escolheu o melhor local para pendurar.



