Odeio fazer domicílios, mas odeio mesmo, mesmo.
Não gosto de ir a casas de pessoas que, ou não saem da cama, ou não têm ninguém que as leve ao centro de saúde. Confesso que lido mal com idosos doentes, acamados, impossibilitados de se queixar, mas lido ainda pior com os retratos de solidão que assisto quase todas as semanas.
Sáio das casas com sensação de dever mal cumprido porque sei que queriam que eu ficasse mais um bocadinho, só pela companhia. E a minha vontade, regra geral, é sair dali bem rápido.
Lido mal com este confronto directo com o isolamento e com estas prisões domiciliárias. Sinto-me impotente e incapaz porque, mesmo que fique mais cinco ou dez minutos, não chega para aquelas gentes largadas em casa, abandonadas por filhos e netos.
Vejo casas desfeitas, frias, que não acolhem quem lá mora, vejo gente que toma mal a medicação porque não sabe ler, vejo desnutrição e desleixo, vejo gente que se deixou estar para ali... sem mais nada.
E detesto. Detesto fazer domicílios.
1 comentário:
Imaginava-te a gostares de domicílios, porque te permitem uma proximidade a quem a merece mais do que qualquer outra pessoa que se desloca à tua unidade de saúde familiar. Imaginava-te a gostares porque imagino-te assim, como és no resto, uma médica humana. Imaginava-te a gostares pelo bem que fazes, ainda que o coração, depois de um domicílio, ele se sinta mal. Sinto essa dualidade muitas vezes na minha profissão. Mas fazemos a diferença, a diferença maior, quando ajudamos quem precisa ainda mais.
Enviar um comentário