Entrei em Medicina em
2000 e, caramba, não foi nada fácil. Fiz o curso com tranquilidade e, a cada
cadeira de especialidade que passava, gostava (quase sempre) e achava que era mesmo aquilo que eu queria. Quis ser Cirurgiã,
Fisiatra, Neurologista, Pneumologista, Obstetra e outras que tais. No entanto,
o hospital não era para mim, era distante, confuso, não gostava da pressão das
urgências e a incerteza que ficava no que acontecia ao doente quando regressava
a casa.
Escolhi, então, a melhor
e mais bonita especialidade médica: Medicina Geral e Familiar. Longe vão os
tempos dos clínicos gerais, dos médicos da caixa (ainda os há, mas cada vez
menos), actualmente é uma especialidade exigente a todos os níveis e com um
encanto único, para mim. A diversidade dum dia de trabalho, o seguimento de uma
gravidez e o acompanhamento da criança desde os primeiros dias, o envolvimento,
ou não, da família neste processo, o marido, a mulher, os avós, os tios e os
primos...
Fiz o meu internato em
Alpendurada, lá depois de onde Judas perdeu as botas, mas com um ambiente de
trabalho priveligiado, profissionais de excelência em todos os níveis e umas
saudades imensas quando os 4 anos terminaram. Fui feliz ali. Aprendi tanto com
a minha orientadora, com os restantes médicos, com uma equipa de enfermagem de
topo. Fui mesmo muito feliz ali.
Virei Assistente de
Medicina Geral e Familiar e vim trabalhar para pertinho de casa. Uma equipa em
formação, só mulheres, tantos projectos, ideias e, acima de tudo, tanta
capacidade de concretização. Tive a minha lista de utentes que crescia a olhos
vistos e, num ano, virou a maior (e melhor) lista da unidade. Nestes 3 anos,
conheci gente que se casou, engravidou, teve filhos e eu sempre a acompanhar.
Privilégio de mais nenhuma outra especialidade. Tive gente que confiou tanto em
mim, que me confidenciou segredos guardados durante anos, que não tomavam nada
sem antes me perguntar, que me queriam "palavrinhas" a toda a hora
porque a minha opinião era importante. Fiz amigos entre os meus utentes, de
várias gerações. Ao longo destes 3 anos soube de histórias horrendas, vi muita
fome e solidão no centro da minha cidade, vi crianças tristes por pais
ausentes, vi idosos tristes por filhos ausentes. Vi o desemprego, a raiva, a
somatização de quem não sabe dizer o que sente, diagnostiquei coisas que não queria
e chorei um dia quando comuniquei que o teste de gravidez deu positivo. Eu e a
futura mãe chorámos de alegria
Decidir abandonar tudo
isto foi, até agora, a decisão mais difícil da minha vida porque, no meu
coração, serei sempre médica de família.
Não vou deixar de
trabalhar, não vou deixar de ser médica e não vou deixar, nunca, de fazer o
acompanhamento global de um doente. Mas vai ser diferente. Despedir-me por
completo das grávidas e da saúde infantil era factor que mais jogava contra a
minha decisão. (assim sendo, todas as minhas amigas em idade fértil e já com
rebentos estão à vontade para me questionar sobre tudo e mais alguma coisa
sobre a vossa gravidez ou pequenos)
Fui feliz em
Alpendurada.
Fui feliz em Aníbal Cunha
E, tenho quase a
certeza, que também serei feliz em Fernão de Magalhães.
5 comentários:
e se eu te disser que já visitei o centro de saúde (USF) de Alpendurada a trabalho (foi para aí em 2007)? ao pé de uma igreja, certo? é mesmo onde o Judas perdeu as botas!!! ;)
Eu entrei lá em 2008 e saí 4 anos depois. Fica mesmo do outro lado do mundo, mas fiz domicílios em sítios com vistas incríveis.
De certeza que continuará uma médica fantástica. Precisávamos de mais médicos assim. Bem haja!
Um bocadinho antes de engravidar da Teresa o nosso médico de família (que conheço desde pequena) reformou-se e ficámos com uma nova médica que me cativou desde o início. É incansável, disponível, cuidadosa. Com ela, nem levo as miúdas ao pediatra, não é preciso! Nem me imagino a "ficar sem" ela. E por isso, imagino a quantidade de corações que vais partir. :)
Dito isto, invejo-te à grande. Pela coragem de seguires o melhor para ti. E por arriscares. Os teus filhos têm a maior das sortes. Felicidades é o que te desejo! Beijinho
Só espero que a minha Inês (a sua única ruiva - que já está a ficar com cabelo mais para o loiro escuro) continue a ser bem seguida.. Mas não vai ser a mesma coisa...
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