Durante 7 anos de trabalho em Centros de Saúde ouvi dezenas (centenas?) destes discursos de mulheres nos seus 40, 50, 60, 70 anos. arrependidas do que não fizeram, do que protelaram, do que esqueceram, do que não viveram em nome dum suposto bem maior. Se, para as mais antigas, foi o abandonar duma possível carreira porque o marido não queria que trabalhasse fora, era mal visto, ou porque alguém lhes disse que deveriam cuidar da família, para outras foi o "abandonar" do tempo em família porque agora podiam trabalhar, ser mais fortes na sociedade, ter um papel activo, uma profissão em crescente. E, em ambos os diferentes discursos, a tristeza por vezes saltava por não terem tido a possibilidade de fazer o que as realmente fazia felizes. Obviamente que fui ouvindo muita gente feliz com as escolhas que fez, mas tantas vezes pensei para mim que não queria, um dia mais tarde, ter aquele discurso, o do "e seu tivesse feito o que o meu coração mandava". Foram essas mulheres o mote para minha mudança, para a minha coragem para a mudança. E, sempre que penso neste assunto, a palavra coragem salta sozinha. É estúpido, mas a verdade é que parece que é preciso ter coragem para assumir que aquilo que nos faz feliz não vai ao encontro à maioria, não segue a maré. Senti que muita gente me olhou de lado por dizer que queria deixar do Centro de Saúde para ter tempo para ser mais Mãe, sinto que me acham uma preguiçosa quando digo que não tenho o menor interesse em fazer a tese de mestrado e ficar apenas com pós graduação do ano curricular. Não faço porque não gosto, não me traz nenhum benefício e me vai roubar tempo para o que realmente ME importa.
E ouvir este vídeo só me reforça alguns gestos, como o deitar-me todas as noites com os meus filhos para que adormeçam com um bocadinho do meu abraço, mesmo que algumas vezes eu também adormeça por lá, mesmo que as teorias todas digam que eles devem saber adormecer sozinhos, mesmo que me tenham dito algumas vezes que não deveria ter acudido a todos os chamamentos nocturnos do Miguel durante os longos meses de falta de sono. O cliché do tempo que voa é a maior verdade da vida e, um dia, eles vão-me pedir para irem para o quarto sozinhos e eu terei a minha memória cheia e consolada.
Provavelmente chegarei à minha terceira idade com pena de muitas coisas que não senti ou vivi, mas tento, todos os dias, que sejam o menos possível.
5 comentários:
Caramba, até me arrepiei ao ler isto :) Muito bonito e muito verdade. É mesmo isso: esqueçamos o que dizem as outras pessoas, a sociedade. Eles crescem tão rápido e o tempo é tão pouco.
<3 adorei este texto. Fez-me lembrei isto que li à uns dias:
propósito de um artigo sobre mulheres que meteram o feminismo na gaveta... Leiam este texto de uma psicóloga de profissão, mas que antes de mais é mãe, mulher e esposa!
MULHERES QUE, POR AMOR, PUSERAM O FEMINISMO NA GAVETA!
Este texto maravilhoso deve mesmo ser partilhado… Por uma questão de reflexão acerca do que andamos aqui a fazer… Para aniquilar pseudo realidades e passar a respeitar mais as pessoas que apostam na diferença por uma questão de sensibilidade, de inteligência e análise profunda da realidade.
Custa-me, como mulher e como profissional de psicologia, deparar-me com esta realidade e ver com quanta injustiça ela é tratada. Ainda ontem, tive precisamente este tema exposto numa consulta – uma cliente expressava o seu sofrimento por não ser respeitada por familiares e amigos na sua decisão de ser mãe e dona de casa a tempo inteiro. Tem sido humilhada constantemente, acusada de inércia e de dependente do marido. Estava ali uma mulher só, perseguida, maltratada, apenas por não seguir a conduta predominante da sociedade.
Incentivei-a no caminho do auto respeito e da auto afirmação. Num dado momento, disse-lhe: “(…)Afinal, as mulheres-coragem de hoje são aquelas que assumem o seu papel de cuidadoras e não se escondem atrás de estatutos profissionais para se afirmarem nos seus direitos de igualdade.” Brilharam-lhe os olhos quando lhe propus esta reflexão! smile emoticon
Ao contrário da opinião geral que me chega, que vê a mulher que decide ficar em casa como submissa e dependente, todas (TODAS!) as mulheres que conheço da minha geração, e das seguintes, que fizeram esta opção, são mulheres amadas e respeitadas pelos maridos, que tomam o comando de quase tudo, que têm uma energia grandiosa e que se esforçam todos os dias por um trabalho muito exigente e que não é reconhecido – para mim, são mesmo as MULHERES CORAGEM dos tempos atuais – remam contra a maré, mas respeitam e dão vida às suas reais necessidades (cumprir o papel materno e de cuidadora do lar de uma forma grandiosa, em entrega total).
Com absoluto respeito por todas as mulheres, quaisquer que sejam as suas opções, mas rejeitando tudo e todos os que representam a perseguição e o desrespeito daqueles que optam pela diferença e não seguem o convencional,
Mónica Vilela
Beijinho, Raquel
Como me revejo neste texto. Como queria um bocadinho só de coragem para dar esse salto e conseguir aquilo que me faria mais feliz: estar mais e melhor tempo com os meus filhos.
Todos os dias os vejo-os crescer, por 2 ou 3 horas. Perco tanta coisa! Falha tanta coisa!
Mas falta-me a coragem, de enfrentar a sociedade e a família. Sinto também que me falta o apoio que, sem dúvida, precisaria para enveredar nessa aventura. Não penso noutra coisa... 24 horas por dia, sonho com o que faria, como seria se pudesse... se tivesse essa coragem....
já não passava aqui há algum tempo e já tinha saudades :) um grande beijinho!
Confesso que a minha mudança não se deu apenas por um querer forte e coragem. Deu-se porque eu podia, tinha alternativa. E isso muda tudo.
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