quinta-feira, 15 de março de 2012

E, na semana passada, aconteceu-me a maior injustiça da minha vida. Senti-a como se sente uma dor leve, uma moedeira que fica a remoer-nos a cabeça, a barriga ou os ossos durante todo o tempo. E foi assim o meu exame de final de especialidade.

Termino a especialidade do meu coração, à qual dediquei os meus últimos 4 anos, com uma porcaria duma nota. Diz, quem não sabe e não é da área que a nota é bem boa, mas essa nota "bem boa" faz-me ficar no lugar 31 de 35! Faz-me diferença em termos práticos? Não. Mas faz-me diferença no orgulho, no meu e no daqueles que contribuiram para a minha formação, que tanta coisa me ensinaram em 4 anos, que tantas vezes depositaram em mim uma confiança total.

Tenho o meu exame todo decoradinho, de uma ponta a outra, cada frase, cara expressão facial, cada pergunta e, anexada a toda essa memória está a sensação de injustiça.

Injusto porque não reflete o que sei, o que fiz e a dedicação com que o fiz. Injusto por cotações estranhas e por perguntas parvas que em nada se relacionam com o dia a dia. Injusto pelas palavras finais de "condolências" falsas, pela postura de "ai não estamos aqui para prejudicar niguém..." conjugada depois com perguntas descabidas...

Depois de tantas vezes contar o meu exame de trás para a frente, ouvi outras tantas "sabes, um nome ás vezes prejudica", "muita gente acha que passaste a vida com cunhas e nunca tiveste de te esforçar muito", "a inveja ás vezes é assim". Ouvi isto de gente da área e fora dela, novos e mais velhos, homens e mulheres.

Lamento, mas não acredito. Não concebo a vida assim e, gosto de acreditar que os outros também não, especialmente aqueles outros que, em algum momento das suas vidas, possuem poder sobre a vida de alguém.

E, independentemente de tudo, o sabor a injustiça não me larga. Mas vai ficando, gradualmente mais suave, e para isso contribui aquilo e aqueles que verdadeiramente importam: os meus! A sensação de tristeza desparece momentaneamente quando ouvimos as pessoas com quem trabalhamos durante 4 anos, dizer: "Oh Doutora, esqueça isso, para nós continua a ser a melhor médica do Mundo", "Ana, podes ter a certeza que te escolheria como minha médica, a nossa opinião sobre ti não muda". E estas frases enchem-me o coração, especialmente a última, dita pelo "Chefe", homem com mais de 30 anos de profissão, sempre actualizado, um verdadeiro líder, um verdadeiro gestor de pessoas, uma referência como médico e Homem.

São os meus que importam, mas é também por eles que irei lutar um bocadinho mais!

11 comentários:

dizaine disse...

Olha, não são as notas que fazem de ti melhor ou pior médica, são subjectivas as avaliações, confio no que me dizes que devo fazer e dar à minha filha, e isso diz tudo!Dói como o raio qualquer injustiça, mas dói mais quando os que privam connosco não nos avaliam como merecemos, e ao que parece não é de todo o teu caso!
Força, que "pessoinhas tinhosas" não vão tirar a minha confiança em ti como profissional, e acredito que os teus também não!

Anónimo disse...

Um nó na garganta... não quis perguntar mas lembrei-me de ti e deste exame que tanto custa passar aos médicos... Agora ainda pior pelas prespectivas de emprego cada vez piores, mesmo para os médicos... por isso não gosto de ouvir noticias destas de pessoas que sei que se dedicam! Por isso só posso desejar boa sorte no que toca ao futuro... que corra melhor!
Porque nós confiamos na Srª Drª... quer ela adopte o nome do Pai com orgulho em vez de o esconder para que isto não aconteça!
Boa sorte no futuro, e que a vida não seja mais injusta!
bjs
MA

Melancia disse...

Muito obrigado minhas queridas!

Kiki - Família de 3 e 1/2 disse...

Só para deixar um enorme beijinho e dar-te muita força! O que interessa é aquilo que tu sabes de ti e aquilo que sabes que és capaz! Go Doc! ;)))

Pitú disse...

Antes eras minha medica SMS ou on line intercontinental... Hoje, minha medica vizinha! Ou seja... Minha medica!

marta disse...

Já o verbalizei mas passo agora a limpo:
para mim, és a melhor do mundo!
Na medicina e fora dela.

*Beijo de Cut-keyte*

Mafas disse...

Só li hj este post! Devia ter-te dado mais beijinhos no sábado... és uma grande Doutora Ana! Porque és uma GRANDE PESSOA. GRANDE AMIGA. GRANDE MÃE. E te dedicas à profissão com o coração... a única forma que conheço de se ser bom MÉDICO!

Cláudinha disse...

A vida, às vezes, traz-nos desilusões...A questão está:"Acreditas em ti?"Se sim, bola para a frente!Uma nota é uma nota e uma pessoa é sempre uma pessoa!Ser pessoa, confiante naquilo que faz, torna-nos mais fortes e melhores que tudo e todos!Beijinho grande e parabéns senhora Doutora!

Ana disse...

O que está para trás e o que vem para a frente demonstra que só um 20 seria justo. Beijo grande.

4D disse...

estive um tempo sem cá vir, fruto de continuar a não conseguir aceder através do teu nick.
E sempre pensei, assumi não sei porquê, que te tinha corrido muito bem. Que tola. E fiquei triste comigo por não te ter perguntado, de ter parecido desinteressada.

deixo-te um enorme beijo e só queria dizer que deves assumir quem és, SIM. E também que és uma pessoa de enorme sensibilidade, na medicina e fora dela.

Mas sei o que é sentirmo-nos injustiçadas. Mas acredita...a porra é que ainda vais passar por mais alguns momentos destes. Os meus surgiram principalmente já depois de estar a trabalhar.

Melancia disse...

Minhas queridas... um OBRIGADO, mesmo em maísculas não chega!