terça-feira, 12 de novembro de 2013

Vozes dum consultório que é meu #7

Fiz o meu primeiro domicílio ao Sr. F. a meio de 2012. Uma doença neurológica degenerativa que a medicina ainda não deu nome, foi-lhe roubando progressivamente as capacidades e atirou-o para uma cama há 5 anos atrás. Roubou-lhe os movimentos e a fala, mas deixou-o com toda a lucidez. O Sr. F. responde-me sempre com um piscar de olhos ou uns discretos movimentos de cabeça. Sempre bem cuidado pela esposa, também já nos seus setenta e tal anos, amorosa, bem disposta, prestável. A D. E., apesar do seu corpo franzino, que se perde naquele grande apartamento, bem decorado, muda o marido de posição a cada três horas e meia de dia e de noite há 5 anos! Não reclama, não fala das suas dores, apenas me diz que ás vezes lhe dá uns ataques de choro, mas que depois fica bem... De todas as vezes que lá fui, insisti para que pedisse aos filhos para a libertarem umas noites, uns dias, para que ela pudesse descansar... Hoje, depois de mais de meio ano sem falarmos, a conversa voltou ao mesmo, insisti com ela que não era justo para ela, que tinha 2 filhos que a deveriam ajudar e ela, com o seu genuíno sorriso do costume disse-me: 
-Sabe, Sra. Doutora, a minha Mãe sempre me disse que começávamos dois e acabávamos dois!
Respirei fundo, fiz um esforço enorme para disfarçar a vontade dos meus olhos (o cansaço não ajuda ao controle das emoções) e sorri-lhe de volta...
As minhas visitas servem para pouco mais do que dois dedos de conversa com a D. E., porque a saúde do corpo do Sr. F. está imaculada, sem uma ferida, uma constipação, uma febre...  E, de 3 em 3 meses lá vou eu preparando lentamente a D. E, para o que um dia irá acontecer, prepará-la para sentir uma falta imensa de acordar a cada 3 horas, mesmo ela estando certa, que além de inevitável, é o melhor que pode acontecer ao Sr F., há 5 anos prisioneiro dentro do próprio corpo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Prima,
gosto muitooo dos teus posts como mãe. Daqueles que falas do Diogo e do Miguel.
Mas também é muito bom ler-te como médica.
Muito bonita esta história, apesar de triste.

Mum's the boss disse...

concordo com a anónima prima do comentário anterior. e cada vez mais me convenço que estás n profissão certa. Tenho tanta pena que a vida seja tão injusta com pessoas boas. nao sei dizer mais. :(