quarta-feira, 1 de julho de 2015

Primeiro o desabafo e depois o relato

Vi a morte do meu filho. Vi a morte do meu filho várias vezes na minha cabeça. Um pensamento, uma imagem impossível de conseguir interromper ao longo de vários dias. Um aperto como nunca houve outro igual. Não foi um susto, foi um pânico, um cenário de horror a contrastar com a calma dele. O meu filho. O meu filho. A vida dele presa por pequenos centímetros de parapeito e o meu coração caído no chão. A minha frieza salvou a vida dele, a minha e de todos que o amam. Ainda choro só de lembrar, um choro sem semelhanças com qualquer outro que já chorei. Um choro sem nome, um choro onde cabe todo o medo do mundo.
E a imagem sempre passar em mim, a imagem de o ver cair. A imagem de perder o meu filho é um tormento e, apesar de já terem passado vários dias ela não desaparece e talvez nunca o faça. Não foi um aviso, um susto, uma lição, foi um horror em forma de possibilidade. 


Sexta feira e escolhemos que a praia seria melhor opção que a escola. O Diogo andava ciumento, desobediente, irritado e estava a precisar dum dia só para ele comigo. Foi uma manhã deliciosa. Estive para ele, estive com ele, saltamos nas ondas, mergulhamos no mar, atirei-o ao ar até os meus braços não aguentarem mais. Construímos castelos com estradas decoradas com algas e conchas, corremos na praia, demos muitas gargalhadas juntos e a felicidade dele era tão fácil de ver. Voltámos para casa e partilhamos a cama para a sesta, duas horas e meia de sono bom, juntinhos.
Acordei e ouvi o Miguel na sala a falar com a minha tia, o Diogo acordou logo de seguida, abrimos a persiana. Disse-lhe que ia para a sala e ele respondeu que já vinha, ainda ensonado a enroscar-se na almofada. Dois, três minutos na sala e o meu coração, um anjo, um milagre fizeram-me correr para o meu quarto. E o que vi está gravado como uma fotografia nítida na minha memória, o Diogo sentado no parapeito da janela com os pés pendurados para fora do prédio. No nosso oitavo andar. Oito andares a separá-lo do chão. Oito. Em silêncio fui até ele e agarrei-o para mim, puxei-o para dentro. Quis-lhe falar mas a voz não saiu. E, em soluços e falhas de voz disse que nunca mais poderia fazer aquilo, que se caísse morria. E agarrei-me a ele a chorar, a chorar de medo, a chorar de medo de amor.
E, todos os dias desde então vejo a morte do meu filho. Vejo o Diogo a cair, vejo a minha impotência. E esta imagem alterna com a que iria na cabeça dele, a sensação de grandeza que ele teve, ali no alto a ver tudo ao longe como ele diz que quer. O meu filho quer voar para conseguir ver tudo o que está longe. E, para ele, o momento de maior horror da minha vida deve ter sido maravilhoso e sereno. 
E isto assusta tanto.

6 comentários:

macaca grava-por-cima disse...

não tenho palavras... só um gigante nó no estômago. Deus proteja os nossos meninos hoje e sempre

S. disse...

Meu.Deus. Gelei por completo.
Mas tiveste a "calma" necessária para não o assustar e tirá-lo dali em segurança. Não sei se eu teria essa "frieza".
Força, essa imagem vai-se desvanecer. Beijinho

Pitú disse...

Adoro-vos.

cindy disse...

chorei ao ler as tuas palavras... não se consegue imaginar a morte de um filho ;( imagino as tuas pernas a tremer até chegar a janela... nunca se pensa no perigo quando se esta em casa ;( já tive 2 sustos com o Gabriel e as imagens continuam gravadas na minha memoria!
tiveste a coragem de não gritar de não o assustar!não sei se ia conseguir isso...
que sejam felizes para MUITOS anos!
P.s. vem outro baby boy a caminho ;)

Ana disse...

Não sei mais o que te diga. Já chorei tanto por causa disto, chorei primeiro pelo Diogo, depois por ti, depois pelo meu Pedro, por mim, por nós. Chorei pela impossibilidade de prevermos tudo, pelo medo que é ter um amor tão grande pelos nossos filhos e não termos a sua segurança, saúde, felicidade como intocáveis. Isto mudou-nos para sempre, minha querida. Mesmo quando a imagem já não te perturbar o olhar, continuarás diferente, nós também. Foram os segundos que nos avisaram que o que importa, mesmo, mesmo, é tê-los por perto e bem.

Marta L. disse...

Fiquei completamente arrepiada... Precisamente no dia 1 de Julho morreu por acidente o filho de duas pessoas que trabalham comigo. A morte desse menino também ficou retida na minha cabeça. Fiquei impressionada com a tua coragem e boa capacidade de reação para salvares o teu filho. Obrigada pela partilha genuína e impressionante.