terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Zebras, a morte, fotografias e a nossa mania de os salvar.


Quase dois meses depois tive de lhes contar que a zebra Tombi, que acompanhavam desde o segundo dia de vida, tinha morrido. No entanto, depois de tanto sofrimento a que já assisti naqueles dois por outras mortes de animais, desta vez não tive coragem para falar a verdade e disse que a Tombi já não estava na quinta porque tinha ido para um Jardim Zoológico. A primeira pergunta foi do Diogo, que quis saber se nunca mais a íamos ver, ao que o Miguel respondeu de forma muito pragmática: vamos a esse jardim zoológico e estamos com ela. Disse que não era possível, que era numa cidade muito longe e, nesse momento o Diogo desata a chorar, mas a chorar a sério. Revoltado. E eu quis um buraco para me enfiar porque me arrependi imediatamente de não ter dito a verdade, a minha mentira não lhe poupou qualquer tristeza, até acho que foi pior a emenda que o soneto, uma vez que o senti revoltado por não se ter despedido e apenas lhe terem dito na véspera de ir à quinta. 
O Miguel seguiu com a vida dele e foi, tranquilamente brincar. Mas o Diogo não. O Diogo deitou-se na cama, agarrou-se ao seu ursinho e  a mim numa tristeza... Pedi-lhe desculpa por lhe ter mentido, que não gosto mesmo nada de lhe mentir e contei-lhe o que realmente aconteceu. Pode até ter sido impressão minha, mas achei que, no meio do choro e da tristeza, se acalmou e disse logo que me desculpava, que eu menti "na hora certa", porque o Miguel estava no quarto, não ia entender a verdade e assim não ficou triste. Só este meu filho para dizer isto... Quis ficar agarrado a mim na cama, sentia-lhe a tristeza na força com que me abraçava e comovi-me também. 
Quando acalmou, sugeri-lhe imprimirmos umas fotografias que tínhamos tirado com a Tombi e colocá-las no quarto para que, desta forma, ficasse sempre presente. No dia seguinte, sem falhar, cheguei a casa com três fotos que ele emoldurou e, meticulosamente, escolheu o melhor local para pendurar.


E eu reforcei aquilo que tão bem sei, que não temos, nem devemos, nem precisamos de os salvar das tristezas da vida, das frustrações, da verdade, mesmo que isso magoe. Ele lidou, mais uma vez, com a morte,  percebeu a importância de termos momentos guardados em papel para que a saudade seja celebrada em honra de memórias felizes.

2 comentários:

Pitú disse...

Fiquei assim... engasgada.. :(

Joana Monteiro disse...

esses teus filhos são adoráveis....... e sim,também têm que aprender a lidar com as perdas que tanto doem! :( beijo grande para os dois