quarta-feira, 8 de março de 2017

Encerro em mim todas as Mães do Mundo

VERSÃO MÃE ZEN


Bem sei o que lhes custa acordar tão cedo, mas acima de tudo, sei que não são escravos do relógio como nós. Não sentem pressa em chegar a lado nenhum, não há urgências, o trânsito nunca entra na equação e o tempo para eles é uma medida abstracta. E que sorte a deles... Não entendem a necessidade de tomar o pequeno almoço sem brincadeiras pelo meio, porque brincar sim, é urgente. E divertem-se logo pela manhã, alheios aos ponteiros do relógio, riem-se, saem da cadeira, engasgam-se de rir. Porque haviam eles de se vestir rápido e bem, se enfiar umas cuecas na cabeça é muito mais divertido? Explico que tenho horas para começar a trabalhar, que não gosto nada de chegar tarde, escolho pequenos almoços mais rápidos para os dias em que entro mais cedo, para lhes (me) facilitar a vida. Sei que vão crescer, que me vão, eventualmente, pedir um relógio e aprender a ver as horas, que vão haver dias em que sentirão a necessidade de lutar contra o tempo, mas devia deixá-los desfrutar melhor deste tempo. Este tempo em que os pensamentos deles saltitam entre assuntos, em que uma tarefa é suspensa a meio porque outra coisa mais interessante lhes desperta a atenção, porque são tal e qual como o livro "Estava a pensar" me ensinou.




VERSÃO MÃE FORA DE ÓRBITA

Há manhãs que me deixam doente. Irrita-me ter que dizer a mesma coisa vinte vezes, irrita-me ter que ir buscar uma grua para os arrancar da cama, enquanto se queixam que ainda têm sono e eu com a certeza de que logo à noite vão adiar ao máximo a ida par a cama. E é assim tão difícil comer um prato de papas de aveia de seguida sem eu ter de mandar parar o raio da brincadeira a cada minuto? Ao tempo que a rotina é esta e, mesmo assim, ainda não conseguiram entender que eu tenho horas para ir trabalhar? Eu grito, ameaço, estabeleço novas regras, mudo a ordem dos acontecimentos (comer-vestir ou vestir-comer) para ver o que corre melhor. Mas custa assim tanto perceber que de manhã é só para acordar, comer, vestir e seguir para fora de casa? Vou trabalhar já cansada e, por mais que explique e esperneie, sinto que não me ligam nenhuma.


Vou deixar a Mãe Zen baixar em mim mais vezes que andar fora de órbita não traz nada de bom.

1 comentário:

Marta L. disse...

Como eu gosto tanto de ti!! ler-te ajuda-me tanto a perdoar-me e compreender-me melhor. Obrigada por no meio de tantas coisas arranjares tempo para escreveres.